Nos últimos 4 anos tenho dado um curso de Relaxamento em algumas instituições de ensino junto com uma grande amiga (Professora Conceição Reis) e um fato que tem nos sensibilizado bastante é o elevado índice de estresse dentre a quase totalidade dos estudantes participantes. Em uma pesquisa que fizemos com 102 alunos de vários cursos de graduação, apenas um destes alunos não tinha indicativos de estresse (de acordo com escala padronizada aplicada, o ISS). O mais alarmante é que mais de 90% tinham níveis preocupantes de estresse – situados nas fases categorizadas entre resistência e exaustão – limiares em que transtornos de ansiedade, depressão e doenças autoimunes já passam a se instalar conjuntamente ao quadro.

Decidimos então investigar os motivos mais importantes atrelados a esse grande impacto na qualidade de vida dos alunos. Entrevistamos mais 82 alunos e eis que nos surpreendemos ao identificar que boa parte das razões atribuídas ao estresse advinha da própria universidade!

Nessa investigação dos motivos do estresse, muitos acadêmicos atribuíram ao ensino recebido adjetivos como punitivo, frustrante, severo, ruim. Apresentaram queixas recorrentes acerca do excesso de provas, trabalhos e matérias, ingredientes que culminavam em seus níveis elevados de estresse. Outros adjetivos apontados abertamente pelos alunos para classificar o modelo de ensino vivenciado foram: cansativo, desorganizado, monótono, preocupante, ultrapassado, superficial, desinteressante.

A falta de tempo e a excessiva autocobrança pessoal também foram elementos percebidos dentre os principais motivos associados ao estresse da vida acadêmica.

Como um pequeno exemplo do exposto acima, na última autoavaliação institucional da Universidade Federal de Uberlândia, Pádua demonstrou que parte dos estudantes considera os métodos de alguns docentes como ultrapassados, obsoletos e ineficazes no processo ensino-aprendizagem.

Questiono então se não é tempo de repensarmos drasticamente os nossos modelos de ensino? Tenho tentado estimular a urgência das instituições de ensino superior de organizarem de forma contundente reformulações em suas políticas curriculares, com grades mais flexíveis, menos dias de aula, outros modelos de avaliação para além das provas tradicionais, sem falar, logicamente, da necessidade de construção de espaços de ensino mais divertidos, práticos, pautados em problemas reais, estruturados de forma colaborativa, menos hierarquizados, com infraestrutura de apoio psicossocial e programas de promoção da saúde capazes de entender e contornar as angústias mais prevalentes destes jovens-adultos.

Podemos citar alguns programas interessantes nesse sentido, como o que foi implantado na Universidade de Santa Maria, com o seu Núcleo de Apoio ao Estudante (Ânima), que tem por finalidade disponibilizar atendimento psicológico, psicopedagógico e orientação profissional/vocacional ao seu alunado. Outro exemplo é o da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás UFG, com o seu Núcleo de Apoio ao Estudante de Medicina (NAEM) e com o Programa “Saudavelmente”, que realizam atendimento permanente aos alunos de todas as unidades que apresentem comportamentos de risco e/ou sofrimento psíquico. O Centro de Apoio Educacional e Psicológico (CAEP) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP também oferece o modelo de assistência psicológica e psicopedagógica para os alunos de graduação. Já o Núcleo de Apoio ao Estudante (NAE) é um órgão de retaguarda acadêmica em saúde principalmente aos estudantes da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Nesse pequeno relato espero instigar os leitores a mandarem suas críticas e apontamentos aos modelos de ensino espalhados pelo país, ou pelo mundo. Modelos cativantes, inusitados, diferentes. Estimulamos também que enviem programas interessantes de apoio aos alunos ou ideias que colaborem com um ensino de maior qualidade para todos.

Já se sentiu muito desmotivado ao longo da sua graduação? Qual a sua crítica principal? Vamos construir um ensino melhor?

“Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão” (Paulo Freire).

Meus sinceros agradecimentos à Prof. Conceição Reis, que possibilitou essas descobertas que me fazem crescer, e que sempre ofereceu um braço amigo, compensando uma formação majoritariamente engessada que tive. 

Felipe Moretti é pesquisador, mestre e doutorando em ciências pela Unifesp.