Um monumento é um marco de memória oficial, isto é, construído para registrar um determinado evento ou imortalizar personagens históricos. Sendo assim, uma reflexão se faz necessária: quem determina o que deve ou não ser registrado, ou quem deve ser imortalizado na história? Bem, este é um questionamento que sempre permeou as políticas de preservação do patrimônio histórico e cultural.

Os registros históricos são quase sempre aqueles pertencentes às memórias dos “vencedores”, pois quem determina e custeia a construção de monumentos são os que exercem o poder econômico e político. Segundo Le Goff, “A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos. De fato, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. Estes materiais da memória podem apresentar-se sob duas formas principais: os monumentos, herança do passado, e os documentos, escolha do historiador”.

Na primeira metade do século XIX surge o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), que mais tarde exerceu papel importante no projeto de forjar uma identidade nacional – assim como os IHGs regionais forjaram identidades regionais – tarefa impossível num país de dimensões continentais e com cultura tão diversa e múltipla.

No final do oitocentismo, São Paulo sedimentou na imagem do bandeirante a representação da força e pujança da província, que outrora fora a origem das bandeiras, mas que havia enriquecido e se desenvolvido com o ciclo do café. Forjou-se a heroicização dos sertanistas, como aqueles que bravamente alargaram e consolidaram as fronteiras nacionais em busca de riquezas como ouro, prata e pedras preciosas.

Desprezou-se a verdade sobre estes homens. Os bandeirantes, em sua maior parte, eram mamelucos – produto da miscigenação do português com a índia -, ou carregava sangue indígena de gerações passadas, como Fernão Dias Paes, Anhanguera, Borba Gato, Arzão, Jorge Velho e outros, e uma menor parte era português, como Raposo Tavares. Muitos andavam descalços e pouco vestidos, como seus antepassados nativos, e apesar de buscarem pedras e metais preciosos, bem como as famosas drogas do sertão, tinham como objetivo capturar indígenas e os escravizar ou os vender como escravizados.

Eram homens rudes, assassinos vis. Uma passagem que ilustra a aspereza e barbárie desses sertanistas é a empreitada de Fernão Dias pelos sertões das Geraes. Segundo Menezes, viajavam há alguns anos enfrentando doenças palustres, etnias hostis, animais selvagens e a fome. Parte do grupo de homens estava muito abatida e queria voltar para São Paulo. Fernão e Borba Gato, seu genro, ordenaram que todos continuassem.

Alguns membros da bandeira conspiraram contra os dois – dentre eles um filho bastardo de Fernão Dias com uma índia escravizada -, e quando descobertos, foram condenados à morte. Borba Gato demoveu o sogro da ideia de executar a todos, pois o moral da tropa já estava baixo. Fernão comutou a pena de morte em castigos físicos e mandou que executassem apenas o seu filho, como exemplo.

Foram estes tipos de homem que se tornaram a representação do herói paulista na virada do século XIX para o XX. Na década de 20, o escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret projetou o Monumento às Bandeiras – homenagem aos bandeirantes, que traz escravizados puxando ou empurrando um batelão -, instalado na região do Ibirapuera 33 anos depois.

Na região do bairro paulistano de Santo Amaro, há uma homenagem a Borba Gato – a antiga Vila de Santo Amaro foi o local de nascimento do bandeirante. Obra do escultor Júlio Guerra, foi inaugurada em 1963.

Com relação aos monumentos, especialmente à estatuária, é preciso considerar o sentido de memória, mas também o valor artístico da obra, já que são esculpidos ou projetados por artistas plásticos.

Em 2013, durante manifestações na capital paulista, baldes de tinta vermelho-sangue foram derramados sobre o Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera. Na época, jornais televisivos e impressos estamparam manchetes acusando como ato de “vandalismo”.

Ora, analisaram o ato sob o valor artístico do patrimônio, mas desprezaram sua função social. Quais memórias este monumento guarda e exalta? A dos maiores algozes dos povos indígenas, que continuam a sofrer com o desterro e o extermínio de suas gentes. Faz sentido termos um marco de memória como este? Ainda que tenha sido projetado por um grande escultor, sua existência é uma afronta aos povos originários e todos os seus descendentes.

Confesso que, ao ver o monumento banhando em tinta vermelho-sangue, interpretei como um processo de ressignificação de extrema relevância, uma espécie de atualização da história às mentalidades do século XXI. Afinal, crianças, jovens e adultos paulistanos, assim como os visitantes da cidade, poderiam a refletir sobre o monumento e a história dos bandeirantes sob nova ótica. Tantas vezes vi guias de turismo contando a história da escultura aos visitantes de maneira a exaltar e heroicizar a ação dos sertanistas assassinos.

Tingir o monumento de vermelho-sangue foi um ato de vandalismo? Ou o vandalismo está em guardar a memória forjada destes falsos heróis? Traçando um paralelo, seria o mesmo que alemães  preservassem em suas ruas, praças ou avenidas, monumentos que exaltassem Hitler e seus asseclas nazistas, mesmo que fossem de um grande escultor como Ernst Barlach.

O monumento só faz sentido se tiver valor sociocultural, e justificará sua existência se permitir análises críticas sobre contextos históricos e sociais. E, se o compreendermos como um bem cultural, e considerarmos o caráter dinâmico da cultura, o monumento deve sofrer ressignificações de acordo com o tempo histórico. A cultura é viva.

Semana passada, o Monumento às Bandeiras e o Borba Gato foram pichados em situações um tanto quanto suspeitas, já que um dia antes candidatos prometeram agir com rigor contra pichadores. Novas críticas espocaram na imprensa e nas redes sociais, quase sempre rasas, mergulhadas em vazio conceitual e sob a ótica conservadora.

É preciso enxergar para além da arte, é preciso refletir sobre o papel sociocultural dos monumentos.

A proposta deste artigo é estimular reflexões. É isso!

Para saber mais:

MENEZES, Raimundo. “Aconteceu no Velho São Paulo”. Coleção Saraiva: 1954.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1990.