Desde criança, dois velhinhos barbudos marcaram indelevelmente minha vida. Um deles nasceu em Tréveris, Alemanha, o outro viveria na Lapônia, Finlândia. Um era o bom velhinho, o outro um capiroto antropófago comedor de criancinhas. Afinal, nasci em 1966, dois anos depois do início de um dos períodos mais nefastos da história do Brasil, o da ditadura militar. Fiz o primário e o ginásio, como eram chamados antigamente, em um colégio de freiras extremamente conservador e subsidiado pelo governo militar, o Colégio Sion.

Assim, aprendi que um velhinho deveria ser temido, enquanto o outro adorado. Em comum, os dois tinham cabelos longos e barba branca. E a cor vermelha da roupa de um era parte de uma identidade simbólica do outro. Um é ícone da sociedade de consumo, o outro embasou sua obra em críticas a ela. Quando criança, deixei-me seduzir pelo bom velhinho e ansiava por suas “aparições” anuais.

Menino privilegiado que fui, não me apercebia daqueles privados de sua vista.  Eu desconhecia  aqueles que viviam na escassez, no jejum, na pouquidade, mas o velhinho alemão não.

Cresci e soube que bons velhinhos não existiam, ou que seriam muito diferentes do mítico bonachão morador da Lapônia. Atinei que ele não passava de uma construção de caráter comercial inspirada na crença em um santo popular entre os flamengos e levada por imigrantes a Nova Iorque.  Descobri que foi o cartunista Thomas Nast que, no final do século XIX, o transformou à imagem e semelhança daquele que conhecemos hoje. O velhinho se tornou uma das grandes celebridades simbólicas e globalizadas do capital.

Entendi que o velhinho mítico, numa relação injusta e cruel, evidencia os abismos sociais que originam a luta de classes, que o velhinho barbudo alemão identificou, sistematizou e revelou ao mundo. Aprendi que o demônio antropófago comedor de criancinhas nada tinha de demoníaco e nem comia criancinhas. Ao contrário, criticava um sistema consolidado pela revolução industrial que consumia homens, mulheres e crianças, indiscriminadamente, como se fossem peças descartáveis e substituíveis. Semi-escravizados, trabalhavam por longas jornadas para manter as máquinas funcionando em troca de migalhas, gerando a riqueza de uns e acentuando a própria miséria.

O estranhamento pelo velhinho barbudo alemão se dissipou à medida que o conheci e o assimilei. Assim, sua genialidade se descortinou. A genialidade daquele que criou a base teórica para as ciências sociais contemporâneas. E que ainda hoje é desconhecido e demonizado por muitos que o criticam. O que é um enorme contrassenso. Como pode criticar aquilo que ignora, desconhece? Como criticar um autor que nunca leu?

Boa parte destes “críticos” é fiel adoradora do implacável velhinho barbudo da Lapônia – bárbaro garoto propaganda do consumismo – e de tudo o que ele sustenta e representa.