Ela nasceu num corpo que não era o seu. Fôrma imperfeita que nunca lhe coube. Desde miúda, lhe ensinaram que deveria gostar do azul – cor da maior parte das suas roupas – e brincar com carrinhos e revólveres, mas ela não aprendia, ao contrário, sentia-se atraída pela cor rosa dos vestidos e pelas bonecas. Sempre gostou das meninas e daquilo que se convencionou como “coisas de meninas”.

Sentia a forte rejeição do pai, que sempre se zangava com ela e dizia “Larga de frescura!”, “Não fala que nem moça!”, “Deixa disso! É coisa de menina!”. Foi surrada por ele diversas vezes, quando flagrada vestindo uma roupa da prima ou de alguma amiguinha, ou aquela vez, quando tinha oito anos, e se maquiou. Via-se linda no espelho, mas apanhava.

As recordações que carregava do pai eram sobre a rispidez da voz e as constantes correções vexatórias ou as surras. Nenhum gesto de carinho. A propósito, uma vez foi apanhada no banheiro de casa brincando com a filha da vizinha, as duas nuas, uma tocando o sexo da outra. Era a fase das descobertas de criança. A mãe a repreendeu sutilmente. No entanto, pela primeira vez experimentou a aprovação do pai e um esgar de carinho.

Sobre a mãe, percebia que sentia um constrangimento por ela quando estavam na companhia de outras pessoas, . Notava seu desgosto e desesperança quando a via calçando um sapato seu, ou vestindo uma blusa ou saia sua. Sempre a repreendia severamente, mas escondia o fato do pai.

Mais tarde, na escola,  alguns a chamavam de “mulherzinha”, “bichinha”, “viadinho”. As meninas sempre eram mais complacentes que os meninos. Eles a repudiavam, exceto dois que também gostavam das mesmas coisas que ela. Tornaram-se grandes amigos.

Ela cresceu. A rejeição do pai era irrevogável, assim como o constrangimento e o desalento da mãe. Lancinava-a a culpa que lhe foi imposta por ser inexata, imprecisa, pela incompatibilidade entre seu talhe e sua alma. Isolava-se. Sofria.

Sustentava-a o par de amigos da escola. Compartilhavam entre eles aquilo que os outros diziam ser aberrações, os desejos despudorados, as imoralidades. Foi para eles que contou sobre o primeiro menino com quem transou. E sobre os outros que vieram depois. E o dia em que deu para vários meninos da escola ao mesmo tempo. Eram aqueles que a nomeavam “mulherzinha”, “bichinha”, “viadinho”.

A vida lhe era uma bigorna de chumbo sobre os ombros esquálidos. De dentro pra fora era angústia, a angústia daquele que não cabe em si. De fora pra dentro era opressão, repressão, humilhação, desprezo. Aos completar dezoito anos, como se fosse o tempo de um rito de passagem, decidiu vazar a angústia ao tentar ajustar o corpo à alma. Comprou roupas femininas, sapato de salto alto, depilou-se, tingiu os cabelos. Olhou no espelho, gostou do que viu.

Apresentou-se aos pais e disse que essa era ela, a verdadeira, a que estava por trás do personagem que sempre fingiu. Apanhou do pai, apanhou muito. Foi expulsa de casa.

Procurou os amigos, os únicos amigos. Disseram a ela que não poderiam ajudá-la e que ela exagerara, não precisava “disso”. Travestir-se pra quê? Eles não compreendiam que ela era diferente deles também, e que pela primeira vez ajustara-se a si.

Sozinha, sem emprego e desamparada por todos, encontrou abrigo nas ruas, nos becos, nas esquinas. Vendia sexo para poder comer. Aqueles que a desprezavam e humilhavam em público, eram os mesmos que pagavam para fodê-la num quarto de um hotel de quinta categoria ou no carro estacionado num beco escuro da cidade. À custa destes fazia seu ganho acanhado.

Numa feita, foi pra cama com um sujeito que ostentava masculinidade. Forte e de fala ríspida, usava uma aliança na mão esquerda. Foderam-se e se chuparam por duas horas, ao final ela cobrou o preço por eles combinado. Ele ofendeu-se, empertigou-se, tornou-se agressivo, bateu muito nela e disse que o que ele fez foi um favor pra uma “bicha” nojenta, que ele é que deveria cobrar dela. Deixou-a muito machucada sobre a cama.

A dor da alma já não mais a incomodava, de tão cruciante a anestesiara. A autoestima não era mais que uma miragem num horizonte distante. A humilhação constante, a violência policial, as surras e o desprezo eram a realidade pujante para uma travesti em situação de rua.

O pouco da solidariedade que conhecera encontrou nas ruas. Aqueles aos quais tudo falta são os que dividem o pouco que têm, quando têm. Questão de sobrevivência.

Naquela noite, aquela última noite, dois jovens transfóbicos partiram para cima dela e ela correu em direção à praça. Gritou por ajuda, mas as pessoas só assistiam. Ela tropeçou e caiu. Os jovens a alcançaram e a espancaram com muitos socos e chutes violentos na cabeça.

A deixaram lá, jazendo no chão, sangrando. Ela morreu. Somou mais um para as estatísticas do país que mais assassina travestis e transexuais no mundo, o Brasil.

No dia seguinte, nenhuma menção sobre sua morte nas redes sociais, apenas uma nota de rodapé na última página de um jornal de pequena circulação: “Homem traído pela namorada descontou a raiva batendo num travesti, que morreu por ter nascido em um corpo que não era o seu.”