Todos os seres, sejam eles vegetais ou animais, possuem sua forma, seus costumes e padrões para se guiarem na vida. Porém, há uma espécie animal, o ser humano, que, segundo os cientistas, é o mais bem-formado e dotado de conhecimento perante os outros seres. Pelo fato de possuir razão, fala e tecnologia. Mas, se analisarmos, ao longo da história percebemos que esses seres são os mais desorganizados e confusos em seu habitat do que os outros, considerados não-racionais. A espécie humana conseguiu desarmonizar tanto o ciclo natural dos seres, modificando, criando e destruindo coisas. Usando e abusando dos recursos, causou um caos em nosso planeta, e, o pior, tudo isso sob os olhos da Razão e em nome do Progresso.

 Desde o início da colonização do Brasil, os Povos Indígenas do Brasil vêm sofrendo transformações em seu modo de viver. Muitas dessas mudanças refletidas na cultura foram consequências de violentos atos cometidos, como bem cita o filósofo e antropólogo Eduardo Viveiro de Castro, ao falar do etnocídio cometido contra os Povos indígenas. Ele diz que um dos principais motivos da destruição em massa de diversas culturas foi a “imposição truculenta de uma religião alienígena”, a qual considerava que os povos que aqui viviam não possuíam Deus, não possuíam crença. E impulsionados por essa missão de evangelizar os Povos nativos, estupraram mulheres, queimaram casas de reza, extinguiram línguas, destruíram culturas milenares. Milhares de Indígenas foram mortos durante os combates de resistência contra as imposições dos colonizadores. A Guerra Guaranítica foi o principal levante indígena brasileiro contra o domínio dos colonizadores europeus. Ocorreu entre os anos de 1754 e 1756, tendo como principais causas: o Tratado de Madri (1750), que estabelecia a entrega da região dos Sete Povos das Missões, controlada por jesuítas espanhóis, a Portugal, o armamento dos indígenas da região pelos jesuítas espanhóis, para que estes resistissem aos portugueses e defendessem a posse da terra na região, as disputas territoriais entre Portugal e Espanha em meados do século XVIII, o poder dos jesuítas nas regiões que faziam a catequização dos indígenas e o forte desejo dos Guaranis em de permanecer em suas terras, não obedecendo aos acordos feitos pelos governantes europeus. Os Guaranis resistiram durante dois anos, até terem sido serem totalmente derrotados por um gigantesco exército das duas nações européias, porém o líder Sepé Tiarajú, que foi torturado e executado em 12 de fevereiro de 1756, se tornou o maior ícone do movimento indígena nacional, exemplo de luta, coragem e resistência, mas até hoje desconhecido pelos brasileiros e ocultado nos livros de história.

Anos se passaram e se inicia a Ditadura Militar no Brasil, poucos falam disso, mas os indígenas foram um dos grandes atingidos. Com base em uma amostra restrita de casos, o relatório da Comissão Nacional da Verdade estima que no mínimo 8.350 indígenas foram mortos por conta de políticas de Estado no período investigado (1946-1988).

Foram os mais diversos tipos de graves violações de direitos humanos que atingiram os povos indígenas, e que, segundo o relatório, se alastraram por todo o território brasileiro em todo o período investigado: remoções forçadas de suas terras, genocídio de povos inteiros, prisões, torturas, maus-tratos, monitoramento e perseguição do movimento indígena que se organizava. O relatório reconhece ainda que “os diversos tipos de violações dos direitos humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra os povos indígenas se articularam em torno do objetivo central de forçar ou acelerar a ‘integração’ dos povos indígenas e colonizar seus territórios sempre que isso foi considerado estratégico para a implementação do projeto político e econômico” do governo. Depois de todas essas violências vividas, ainda hoje existem agressões cometidas contro os Povos Indígenas. Ainda hoje pastores, de religiões diversas, invadem comunidades e impõem seus Deus, sua crença e continuam com essa missão e esquisita mania de catequizar aqueles que julgam não possuir Deus.

Por outro lado, projetos políticos e econômicos vêm brutalmente impactando as terras indígenas, como a atual tentativa de aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 215 na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a qual indica a disposição de grande parte do parlamento brasileiro em reinaugurar o período de Invasão Colonial, dilapidando territórios indígenas e fragmentando culturas através de um neoliberalismo ruralista vergonhoso e inimaginável para o século XXI.

Nesse sombrio cenário, estão presentes os mais de 240 povos indígenas desse nosso Brasil, falantes de línguas diversas, com culturas e crenças complexas resistindo e lutando a cada amanhecer na busca de autonomia e empoderamento de seus saberes, tentando mostrar aos habitantes dessa morada terrestre que dinheiro não se come, que sem água não há vida e que, na verdade, o golpe já foi instaurado há séculos! Basta de abuso e dominação!

Mbaraete Pyaguaxu!!!

Força e Coragem pra quem resiste !!!!

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O último tupinambá – tela de Rodolfo Amoedo.