“Casei com 16 anos. Morava na roça. Não sabia de nada. Engravidei de um filho atrás do outro. Meus partos foram em casa. Um foi de gêmeos. Não podia trabalhar. Não podia sair sozinha. Não podia nada. Não falava. Não dava opinião. Só limpava a casa e cuidava dos filhos. Acho que meu marido quis que eu tivesse muitos filhos pra ser mais fácil me prender. Ele nunca me deu um centavo. Comprava comida e me deixava o dia todo com as crianças sem nenhum dinheiro. Eu usava toalhinha pra segurar a menstruação até bem pouco tempo atrás. Ele não me deixava comprar absorvente. Dizia que mulher sangrando não tinha que pôr o pé na rua. Nunca me deixou trabalhar. Não tenho uma profissão. Isso me aprisionou! Mas o que me deixava mais triste era não ter dinheiro pra pintar meu cabelo. Sempre gostei de andar arrumada… mas o tempo foi passando e eu me sentia cada vez mais feia. Nunca fui feliz. Nunca! Ia nas consultas e me enchiam de remédios. Pra dor, pra dormir, pra parar de chorar. Passei anos assim. Até que um dia, meu filho mais velho começou a trabalhar e passou a me dar tudo o que eu sempre sonhei. Pouca coisa. Não era luxo. Mas eu comecei a sair, pintar o cabelo, comprar absorvente, fazer  sobrancelha, passar batom. Coisas que eu nunca tinha feito. E os outros filhos também começaram a ter dinheiro e me comprar roupas novas, sapatos, me levar pra passear.”

“E seu marido?”

“Ele ficou velho. Depende de mim pra tudo. Uma vez tentou me proibir e eu disse a ele: Acabou! Cansei! Eu vou viver a minha vida. Você é um homem velho e sem saúde. Não tem ninguém por você. Seus filhos, seus irmãos, seus parentes… você acha que alguém virá lavar suas roupas? Você me humilhou e me maltratou a vida toda e eu aguentei calada. Se quiser continuar aqui dentro dessa casa comendo a comida que eu faço, vai ser do meu jeito. E tem mais uma coisa, doutora: ai das minhas filhas se eu souber que elas estão aguentando desaforo de homem. E ai dos meus filhos se eu souber que eles estão maltratando as mulheres deles.”