Nas crônicas esportivas de Nelson Rodrigues, regularmente apareciam certos personagens de que o cronista fazia uso para expor alguns de seus pontos de vista não só sobre o futebol, como também sobre a política, a sociedade, a cultura, enfim, a vida em geral.

Uma das figuras mais marcantes era a “Grã-fina de narinas de cadáver”, que de certa forma representava, dentro de sua arrogância tão típica dos membros da elite brasileira, a alienação desta classe social em relação aos interesses, hábitos e preferências das camadas mais populares. Em uma das suas aparições, a grã-fina vai ao Maracanã, e em meio à empolgação, tentando compreender o que se passava ali naquele estádio lotado, pergunta: “Quem é a bola?”. A pergunta mostra, dentro dos exageros barrocos tão típicos de Nelson Rodrigues, o quanto o futebol e a cultura popular brasileira são ignorados, desconhecidos e menosprezados pelas camadas mais “altas” de nossa sociedade.

O futebol, que chegou ao país como um passatempo para jovens abastados recém-retornados da Europa, aos poucos foi se modificando, logo perdeu seu traço elitista inicial e se tornou uma manifestação essencialmente popular, a ponto de em um determinado momento o Brasil ser chamado de o “país do futebol”. Acredito que sempre houve um certa dose de exagero nesta ideia de país do futebol, mas de alguma forma ela ilustra algo que durante muito tempo foi um fato por estas bandas, aqui nós jogávamos muito e gostávamos muito de futebol.

Mas com o tempo este perfil foi se modificando e o futebol foi perdendo seu caráter essencialmente popular. Ele ainda é algo bastante popular, porém nem tanto quanto já foi. E qual seria a razão desta outra mudança?

  As explicações são muitas, algumas bastante questionáveis, outras bem coerentes, mas nem todas plenamente satisfatórias. Elas se baseiam em temas como a decadência técnica do nosso futebol; a desorganização do nosso futebol; a fuga cada vez mais precoce dos nossos principais jogadores para o exterior; a violência dentro e fora dos estádios; a elitização dos preços dos ingressos. Todos são motivos pertinentes, e nem é a minha intenção analisar cada um deles aqui, e sim apenas chamar atenção para um destes argumentos, aquele que diz respeito a uma mudança no perfil do público dominante que atualmente frequenta os estádios de futebol.

É um fato mais do que comprovado que nos últimos anos houve uma crescente elitização das arquibancadas, muito em razão do aumento dos preços dos ingressos. Com isso, boa parte daquele “povão” que frequentava os estádios de futebol começou cada vez mais acompanhar as partidas pela televisão e menos no campo. Não digo que somente isso seja uma causa da mudança do caráter popular do futebol brasileiro, mas certamente é um grande sintoma desta mudança.

Atualmente, a Série A do campeonato brasileiro tem várias arenas modernas como palco para os seus jogos, e algumas delas recebem uma excelente média de público. Mas mesmo assim o público presente  não se comporta como torcedores e sim, muito mais como se fossem uma plateia de teatro. A “torcida” atual, em sua maioria branca e de classe média, tem um comportamento frio e até um pouco distante em relação ao jogo, lembrando em muito a grã-fina das narinas de cadáver de Nelson Rodrigues. Os estádios atuais só ainda não se transformaram em imensas geladeiras porque ainda restam bastiões de resistência: as torcidas organizadas, que se esforçam através dos seus cantos em espalhar seu entusiasmo pelo resto do estádio. Torcidas estas, principalmente no estado de São Paulo, que vêm sendo alvo constante de repressão da polícia militar, talvez apenas mais um sintoma deste processo de elitização do futebol.

Grande símbolo desta transformação é o fim da geral nos estádios, espaço eminentemente popular, onde se assistia aos jogos em pé e cujos ingressos eram muito mais baratos. Nos tempos do velho Maracanã, era para lá que os jogadores corriam para comemorar seus gols, era ali que se localizavam os torcedores mais folclóricos e apaixonados, era ali que estava o “povão”. E agora onde ele está? Ele foi embora e junto com ele muito daquilo que fez parte da grande magia do futebol brasileiro, a festa da torcida.

Haverão aqueles que dirão que estou errado, que exagero e que não passo de um nostálgico, e que existe sim ainda uma grande festa nas arquibancadas brasileiras. Não nego, mas o fato é que muito das práticas torcedoras se transformou e se elitizaram. Algo se perdeu no caminho e quem frequenta estádios há quase quarenta anos, como eu, sabe do que estou falando. Hoje quem domina as arquibancadas são grã-finas de narinas de cadáver. Se deixamos de ser o “país do futebol” por conta disso, não sei, mas acredito que isto contribuiu bastante. Por isso peço: volta geral!