Há tempos tenho me debruçado sobre assuntos de mulheres. Talvez ficasse mais acertado dizer: sobre mulheres.

Como historiadora, é certo que a História é sempre base e inspiração. Mas longe daquilo que alguns acham que é História, já que mesmo sabendo que é ideia ultrapassada, muitos acreditam que só falamos sobre o passado.

Falo e penso em História das Mulheres. Neste sentido, academicamente observo e me amparo em discussões que mostram que, apesar de as mulheres fazerem parte dos acontecimentos – o que é óbvio, afinal elas existiram e existem – pouco sabemos acerca do que fizeram, pensaram, “causaram”!

Com muita felicidade conheci ao longo dos últimos 17 anos – desde quando ingressei no curso de História – trabalhos de pesquisadores, especialmente pesquisadoras, que tiveram a coragem de sair do costumeiro. Com rigor e método, iluminaram cantos do cenário de um palco ocupado até então exclusivamente por homens. Com coragem, mudaram o roteiro de sempre e bagunçaram a cena. Tomando o centro, colocaram como protagonistas mulheres que conseguiram deixar vestígios. Mas o que dizer sobre as tantas que nem isso puderam fazer?

O mergulho nas brechas, frestas e resquícios permitiu vislumbrar condutas inéditas e movimentos de mulheres ao longo da imensa lacuna histórica que ficou e permanece impulsionando novas investigações…

Este desequilíbrio histórico sempre me incomodou, especialmente quando percebia que mesmo no tal “presente” os mesmos impasses se colocavam. Certamente em menor medida, mas ainda assim de forma impassível!

A história oral, como forma de saber, me ofereceu oportunidades diferentes ao possibilitar ouvir experiências de mulheres que dificilmente teriam suas histórias registradas no tempo presente. Mais dificilmente ainda através de seu ponto de vista, considerando suas angústias, desafios e desejos! Fiquei feliz ao poder fazer ecoar vozes desconhecidas e, quem sabe, facilitar alguma transformação positiva em suas vidas.

Mas esta rotina de pesquisadora não é tão simples. Afinal, a vida segue e fala mais alto! Torna-se, por vezes, desesperadora! Impossível não acompanhar diariamente os episódios sórdidos de violência contra as mulheres! Os sentimentos de repúdio e indignação por vezes nos dão fôlego para tentar fazer alguma coisa. Mas a situação piora muito quando precisamos reconhecer como um fenômeno de nossa sociedade o feminicídio. De que serviu ou serve tanta pesquisa e esforço? Isso porque não tocamos ainda na luta indiscutível das feministas…

Quando acordei no primeiro dia de 2017, soube de mais uma tragédia e o que as redes sociais pulverizaram a respeito. A constatação primeira, sem qualquer tentativa de organizar informações, foi de que tudo continua como sempre foi: esforços em compreender e esclarecer a situação inundados por manifestações que procuram justificar a violência.

Num lampejo, me lembrei de uma das coisas mais bonitas que aprendi:

“É preciso ouvir e, sempre que possível, mediar as vozes daqueles que não são ouvidos.”

Quantas mulheres quiseram falar sobre o que sentiram e viveram? Quantas delegacias são necessárias para que denúncias sejam registradas? Quantos registros e BOs são necessários para que homens violentos sejam punidos? Quantas vozes precisam ser ouvidas para que os discursos que tanto nos orgulhamos de escrever em nossos trabalhos façam realmente alguma diferença?

Os dados estão aí. A violência contra as mulheres assusta e o feminicídio é uma realidade. Mas quem as ouviu? Suas vozes foram para sempre interrompidas!

Até quando vamos esperar para minimizar essa lacuna histórica no presente? Precisamos, definitivamente, ouvir as mulheres!